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Cães sabem que é um cão quando veem um cão?

Antes de qualquer coisa: essa não é uma questão filosófica.
Apesar das grandes diferenças físicas entre as raças, cães conseguem reconhecer uns aos outros apenas pela visão.

“Vejo cães”

“Com que frequência?”

“Em todo lugar!”

Meus ouvidos já se animam ao ouvir o tilintar de metais na esperança de ser um cachorrinho com sua coleira batendo medalhas de identificação. E então… é apenas uma pessoa com as chaves penduradas no bolso (ah, que decepção).

Uma pessoa que anda na rua com o braço estendido me mantém na esperança de ver uma coleira sendo segurada, e um cachorro no fim da sua extremidade (às vezes é um carrinho de bebê, fazer o que…).

De longe, meus olhos me pregam peça, então sacos de compras se tornam cães e cães se tornam sacolas até chegar mais perto e eu perceber o que é (mas sempre torcendo para que seja um cão).

Meu lema é: “tudo é cachorro, até que se prove o contrário”. 😉
Mas e quanto aos cães, como será que é?

Apesar das grandes diferenças físicas entre as raças, cães se reconhecem apenas pela visão.

Será que um cachorro sabe, apenas ao ver, que se aproxima outro amistoso cãozinho? 

Antes de responder, lembre-se disso: Canis familiaris é a espécie menos uniforme do planeta. Os animais dessa espécie são de uma ampla gama de formas e tamanhos corporais. Do mais pequenininho toy nenê, ao mais gigantesco cachorrão. Adultos dessa espécie se enquadram em vários pequenos “pacotes”. Existem os musculosos “halterofilistas”, às magricelas bailarinas, os estilos “cachorro-quente” entre vários outros.

Será que um Pug, ao olhar para um Galgo Afegão (Afghan Hound) ele solta:
“Oi cachorro!”?

Ou seria algo mais do tipo:
“Que p*&#  é você?” e então só depois de dar uma cheirada clássica “Hola que tal?” é que o Pug vai pensar: “ah, meu Deus, que tolo. Você é um cachorro! Desculpe minha confusão, minha compatriota nariguda”.

Um bom número de pesquisadores tem buscado saber essencialmente o que pensa um “Pug” frente a um “Galgo Afegão”, como no exemplo. Seriam os cães capazes de identificar outros cães apenas pela aparência – eles imaginaram. Se pistas olfativas são tiradas da equação, um cachorro ainda saberia que outro cachorro é um cachorro?

Pesquisa na França

Um time de pesquisadores franceses assumiu a tarefa e publicou o que descobriram no artigo Animal Cognition de 2013. Nove cães de companhia foram objetos de estudo. Todos eles tiveram treinamento básico e grande experiência de relacionamento com pessoas e também outros cães e claro, notadamente todos os participantes eram completamente diferentes fisicamente entre eles. Dois tinham raça pura (Border Collie e Labrador), os outros eram vira-lata.

Veja abaixo todos os lindos representantes do estudo. Eu votei em Cusco para o prêmio de Olhos e Orelhas Mais Alinhadas, enquanto Babel, Cyane e Sweet empataram para o prêmio de Mais Fotogênicos 🙂

A trupe dos pesquisados

Como a pesquisa funcionou

A configuração da experiência foi bastante simples: os nove indivíduos viam duas telas. Uma à direita e outra à esquerda com uma divisória entre elas. Em cada tela, duas imagens apareciam simultaneamente e os cães eram incentivados por um click (de adestramento) e um petisco a escolher a tela “certa”, se aproximando dela – já conto mais detalhes. Veja como funcionou o esquema abaixo:

Estrutura do esquema da pesquisa.

Para saber se os cães podiam identificar outros cães baseados apenas na aparência, os pesquisadores primeiro criaram uma “linguagem comum” entre eles e os cães. Fizeram isso com o auxílio de três sessões de treinamento onde os cães pesquisados recebiam um petisco e um agrado se eles se aproximassem da tela com a imagem de um cachorro nela.

Importante: a mesma imagem do cão foi utilizada em todas as sessões de treinamento. Durante a fase de treinos, a outra tela permaneceu desligada, ou aparecia completamente azul ou com a imagem de uma vaca. Os cães não eram premiados se se aproximassem da tela sem a imagem do cachorro. E assim criou-se a “linguagem comum”: você vai ser recompensado se se aproximar da tela com a imagem do cachorro, somente.

Era considerado sucesso quando os cães se aproximavam de 10 a 12 vezes consecutivas em cada treinamento. Assim evitou-se que o cão pesquisado acertasse o exercício apenas “por sorte”. Todos os nove cães pesquisados foram capazes. A “linguagem comum” estava determinada.

Imagem da sessão de treinamento.

Veio então o teste. Foram apresentados aos cães uma imensa variedade de rostos-nunca-antes-vistos de cachorros em uma tela, e na outra uma série de rostos-nunca-antes-vistos de outros animais – como a vaca utilizada no treino.

Como haviam treinado, eles deveriam se aproximar da tela com imagem de cachorro e evitar a outra tela para receber o petisco. Essa agora já não era uma tarefa fácil. As imagens mostravam cães morfologicamente diversos na forma, cores, tamanhos, desenho da cabeça, posição das orelhas… e assim por diante.

Pra ficar ainda mais difícil, as imagens de cães eram emparelhadas a uma variedade grande de rostos diferentes de cachorros, incluindo rostos humanos, gatos, cabras, coelhos, répteis, pássaros entre vários outros. Os rostos eram exibidos frontalmente ou de perfil. Veja abaixo alguns exemplos de como as imagens foram exibidas.

As imagens trouxeram rostos frontais (facial), perfil (profile) e 3/4.

E os cães pesquisados acertaram!

Todos os nove cachorros da pesquisa acertaram as telas que exibiam CÃES e evitaram as telas que exibiam “NÃO-CÃES”. Alguns como Babel, Bag, Cyane e Vodka, foram capazes de identificar tão rapidamente que precisaram de poucas sessões para identificar entre 10 e 12 imagens de cães consecutivas.

Outros como Bahia e Cusco, foram mais lentos ao escolher e precisaram de mais sessões para distinguir os cães dos “não-cães”.

Foram utilizadas de 2 a 13 sessões para que os cães pesquisados cumprissem o critério de 10 a 12 identificações seguidas (sem errar) dos cachorros na tela.

Claro que isso não quer dizer que Bahia e Cusco não reconhecem um cão quando o veem um. Os pesquisadores enfatizaram que um número de fatores – como a personalidade do cão, estilos de aprendizagem e estratégia e também motivação – podem afetar o comportamento deles, e entãu sua performance, durante um teste como o explicado.

Mesmo assim, o estudo sugere que, apesar das aparências muito diferentes, cães conseguem identificar outros cachorros apenas ao vê-los. Eles parecem ter ao menos um senso distinção entre quem se encaixa na categoria “esse é cachorro” e quem não. Exatamente quais parâmetros os cães usam para saber, o estudo não conseguiu alcançar. Os pesquisadores afirmam que esse seria um próximo passo – natural – da pesquisa.

A pesquisa original está aqui:

Autier-Dérian D, Deputte BL, Chalvet-Monfray K, Coulon M, Mounier L. 2013. Visual discrimination of species in dogs (Canis familiaris)Animal Cognition, 16, 637—651. 

Tem gente que já fez o teste em casa! 🙂

Fonte:
Blog Scientific American

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